O Brasil começa 2026 com um retrato nítido do que foi o ano anterior. Entre janeiro e novembro de 2025, 4,6 milhões de pequenos negócios foram abertos no país, o maior número já registrado na série histórica.
O dado foi divulgado pela Agência Brasil, com base em levantamentos do Sebrae, e representa um crescimento de 19% em relação ao mesmo período de 2024. O volume confirma a força do empreendedorismo brasileiro e, ao mesmo tempo, reposiciona o debate sobre a sustentabilidade desse movimento no médio prazo.
Criar empresas nunca foi tão acessível. A formalização como microempreendedor individual, a digitalização de serviços e a redução de barreiras burocráticas tornaram o início da jornada empresarial mais rápido e menos custoso.
O desafio surge depois. Em um mercado cada vez mais ocupado por novos negócios, a expansão deixou de ser um desdobramento natural do tempo de operação e passou a depender de preparo estrutural, decisões mais conscientes e leitura estratégica do ambiente competitivo.
O perfil dos novos negócios e o desenho do crescimento
Os pequenos negócios responderam por 97% das empresas abertas em 2025. Desse total, 77% são microempreendedores individuais (MEI), enquanto 19% correspondem a microempresas e 4% a empresas de pequeno porte, segundo dados da Agência Brasil.
O setor de serviços concentrou 64% das novas aberturas, impulsionado por atividades como transporte rodoviário de cargas, logística urbana, publicidade e serviços administrativos. O comércio respondeu por 21%, enquanto a indústria ficou com cerca de 7%. Em termos regionais, São Paulo concentrou 29% das novas empresas, seguido por Minas Gerais (11%) e Rio de Janeiro (8%).
Esse perfil ajuda a compreender a dinâmica atual do empreendedorismo no país. Predominam negócios criados para operar com estruturas enxutas, baixo investimento inicial e foco em demandas específicas do mercado. A lógica dominante é a da experimentação rápida: testar, ajustar e validar antes de crescer. Esse modelo facilita a entrada, mas tende a revelar limites quando a operação começa a ganhar escala.
Quando crescer deixa de ser apenas vender mais
No início da trajetória, o crescimento costuma ser associado ao aumento de faturamento ou da base de clientes. Essa leitura é compreensível e, em certa medida, necessária para validar o negócio. O problema surge quando essa lógica se prolonga além do necessário.
Afinal, expansão envolve sustentar o crescimento com previsibilidade e eficiência.
Muitas empresas que nasceram em 2024 e 2025 chegam agora a um ponto de inflexão. A tração inicial confirma a existência de demanda, mas a operação passa a lidar com um nível maior de complexidade.
Mais clientes exigem mais atendimento, mais dados, mais processos e decisões cada vez mais interdependentes. É nesse momento que estruturas pensadas para começar passam a mostrar seus limites.
O papel do MVP e os efeitos de longo prazo das decisões iniciais
O MVP (Produto Mínimo Viável) ocupa um lugar central nesse processo. Concebido para permitir testes rápidos com menor risco, ele viabiliza a validação de hipóteses, o entendimento do comportamento do cliente e ajustes na proposta de valor antes de investimentos mais robustos.
As dificuldades aparecem quando o MVP é tratado como algo desconectado do futuro. Decisões técnicas, operacionais e até culturais tomadas nessa fase acabam sendo mantidas por inércia. Sistemas improvisados, processos manuais e soluções paliativas passam a integrar a rotina da empresa. O que funcionava como experimento começa a limitar a evolução.
O acúmulo dessas escolhas iniciais gera um efeito recorrente no ambiente empresarial. A empresa cresce, mas carrega uma estrutura que não evoluiu na mesma velocidade. O resultado costuma ser retrabalho, dificuldade de integração entre áreas e perda de eficiência à medida que o negócio se expande.
Estrutura, gestão e o custo invisível da improvisação
O volume recorde de empresas abertas convive com um ritmo relevante de encerramentos. Dados reunidos pelo Portal Contábeis, com base em relatório do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, mostram que quase 1 milhão de empresas encerraram suas atividades apenas no primeiro quadrimestre de 2025, mesmo em um período de forte abertura de novos negócios.
Esse contraste ajuda a entender por que a expansão se tornou um ponto sensível. Muitas empresas conseguem iniciar operações e validar uma demanda, mas encontram dificuldades quando precisam organizar gestão, finanças e processos em um cenário mais complexo.
A pressão financeira surge como um dos primeiros sinais desse desequilíbrio. Indicadores da Serasa Experian apontam crescimento nos pedidos de recuperação judicial ao longo de 2025, refletindo dificuldades de caixa em empresas que já superaram a fase inicial, mas ainda não consolidaram estrutura suficiente para sustentar o crescimento.
Nesse contexto, a improvisação deixa de ser apenas uma característica do começo e passa a afetar diretamente a capacidade de expansão. Decisões tomadas para ganhar velocidade, muitas vezes apoiadas em MVPs pouco preparados para evolução, tendem a limitar a eficiência e elevar o custo de adaptação conforme a operação cresce.
Pessoas, liderança e cultura no centro da expansão
O avanço da operação também altera a dinâmica interna das empresas. Equipes crescem, funções se especializam e a comunicação deixa de ser direta. A liderança precisa migrar da execução para a coordenação e o direcionamento estratégico.
Quando essa transição não acontece, surgem sobrecarga, conflitos de prioridade e perda de alinhamento. A cultura organizacional, geralmente informal no início, precisa amadurecer para sustentar o aumento de complexidade. Sem esse ajuste, gargalos internos passam a afetar a eficiência da operação e a experiência do cliente.
Um mercado mais competitivo e seletivo
O recorde de abertura de empresas em 2025 ampliou a concorrência em diversos setores. Mais negócios disputam atenção, clientes e recursos em um ambiente que exige preparo maior para sustentar crescimento.
Nesse cenário, crescer passou a depender menos do impulso inicial e mais da capacidade de organizar a operação, tomar decisões consistentes e sustentar o negócio ao longo do tempo.
Assim, a expansão deixa de ser um desdobramento automático do crescimento e passa a refletir o grau de maturidade de cada empresa.
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