O primeiro semestre de 2026 deixou sinais mistos para as empresas no Brasil. A economia cresceu, o mercado de trabalho continuou aquecido e alguns setores mantiveram atividade elevada. Ao mesmo tempo, crédito caro, inadimplência em alta e oscilações na indústria, no varejo e no mercado financeiro reduziram a margem para erros de gestão.
Esse cenário mostra um ambiente mais seletivo. Há demanda e espaço para crescer, mas empresas com informações fragmentadas, processos lentos e pouca visibilidade sobre a operação ficam mais expostas às mudanças de consumo, custo e risco.
O que os dados do 1º semestre revelam sobre as empresas no Brasil?
A economia começou o ano em expansão. Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto cresceu 1,1% no primeiro trimestre em relação aos três meses anteriores. A indústria avançou 1% e os serviços, 0,5%. Os investimentos cresceram 3,5% nessa comparação.
Ainda assim, a taxa de investimento ficou em 16,5% do PIB, abaixo dos 17,6% registrados no primeiro trimestre de 2025, conforme o mesmo levantamento do IBGE. O dado sugere que a atividade cresceu, mas a disposição para ampliar capacidade e assumir compromissos de longo prazo continuou mais contida.
O mercado de trabalho ajudou a sustentar o consumo. De acordo com a PNAD Contínua do IBGE, a taxa de desocupação ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio. O rendimento real habitual cresceu 4% em relação ao mesmo período de 2025.
A inflação também perdeu força no fim do semestre. O IPCA divulgado pelo IBGE avançou 0,16% em junho, depois de subir 0,58% em maio. O índice acumulou alta de 3,36% no ano e de 4,64% em 12 meses.
Esses indicadores criaram alguma sustentação para a atividade, mas o desempenho variou bastante entre os setores.
Segundo a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, a produção industrial recuou 0,2% em maio frente a abril, interrompendo quatro meses consecutivos de crescimento. Mesmo com a queda mensal, o setor ainda acumulava avanço de 1,4% no ano.
No varejo, o IBGE registrou queda de 1,5% nas vendas em abril, na comparação com março. O comércio, porém, mantinha crescimento de 2% no acumulado dos quatro primeiros meses de 2026.
Já o volume de serviços avançou 1,2% em abril, recuperando a perda observada em março. No acumulado do ano, o setor crescia 2,2%, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE.
O primeiro semestre, portanto, não aponta uma retração generalizada. Ele mostra uma economia em crescimento, porém com ritmos diferentes entre atividades e meses. Para as empresas, acompanhar apenas indicadores gerais já não basta. É preciso entender como cada movimento alcança vendas, contratos, custos, atendimento e capacidade operacional.
Crédito, consumo e inadimplência pressionam a gestão
O crédito continuou avançando, mas ficou mais caro e arriscado. Conforme as Estatísticas Monetárias e de Crédito de maio, divulgadas pelo Banco Central, a carteira total do Sistema Financeiro Nacional cresceu 9,5% em 12 meses. O crédito destinado às empresas avançou 6,8%.
A composição desses números merece atenção. O estoque de crédito livre para pessoas jurídicas permaneceu estável em 12 meses. As novas concessões para empresas, já descontadas as variações sazonais, recuaram 1% em maio, segundo o Banco Central.
O custo também aumentou. A taxa média do crédito livre para empresas chegou a 25,2% ao ano em maio, com alta de um ponto percentual em 12 meses. A inadimplência das pessoas jurídicas atingiu 3,2%. Nas operações empresariais com recursos livres, chegou a 4,1%.
Os dados indicam que o crédito segue circulando, embora em condições mais exigentes. Esse quadro aumenta o peso de atividades como análise de risco, conferência documental, acompanhamento de contratos, cobrança e renegociação.
Em operações com grande volume, qualquer falha de informação tende a se espalhar. Um documento fora do histórico atrasa a análise. Uma atualização que não chega à equipe responsável gera novo contato com o cliente. Uma cobrança sem segmentação consome tempo em casos com pouca chance de retorno.
Por isso, a pressão do crédito aparece também como um desafio operacional.
Digitalização e operação entram no centro da estratégia
Os dados do setor de serviços mostram que a digitalização continua avançando. Em abril, as atividades de informação e comunicação cresceram 6,3% em relação ao mesmo mês de 2025, segundo o IBGE. O resultado foi impulsionado por desenvolvimento de software, consultoria em tecnologia, tratamento de dados, serviços de aplicação e hospedagem na internet.
Esse crescimento revela maior demanda por tecnologia, mas também aumenta a complexidade das operações. Canais digitais, plataformas, sistemas internos e parceiros externos precisam trocar informações sem criar etapas paralelas ou controles duplicados.
Algumas prioridades ganham espaço nesse contexto:
- Integrar dados de atendimento, contratos, pagamentos e execução;
- Automatizar alertas, atualizações e tarefas previsíveis;
- Manter o histórico de cada processo acessível;
- Proteger dados e controlar permissões;
- Acompanhar prazos, pendências e causas de retrabalho.
A transformação digital nas empresas produz mais resultados quando alcança a rotina. Adotar novos canais sem organizar o fluxo por trás deles pode apenas deslocar o problema de lugar — tema tratado com mais profundidade em "Como implantar automação de processos sem perder o controle?".
Diferentes setores mostram pressões parecidas por eficiência
Cada setor encerrou o semestre em uma situação própria, mas alguns desafios operacionais se repetem.
No varejo, a oscilação mensal das vendas exige leitura rápida da demanda, controle de estoques e integração entre loja física, e-commerce, pagamento e atendimento. O crescimento acumulado não elimina a necessidade de reagir a meses mais fracos sem perder margem ou qualidade de serviço.
No automotivo, os emplacamentos cresceram 16,01% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2025, conforme levantamento da Fenabrave. O setor também registrou avanço de 18,96% em junho na comparação anual.
O aumento do volume movimenta propostas, financiamentos, contratos, documentos e atendimentos. Também amplia a necessidade de manter o histórico de cada etapa. Em processos posteriores à venda, recursos de tecnologia na recuperação de veículos ajudam a organizar evidências, automatizar rotinas e acompanhar indicadores.
Na logística, o volume do transporte de cargas recuou 0,9% em abril, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE. Foi o segundo resultado negativo consecutivo. O segmento ficou 6% abaixo do ponto mais alto da série, alcançado em julho de 2023.
Oscilações desse tipo aumentam a importância de controlar prazos, ocorrências, parceiros, documentos e informações de entrega. Sem rastreabilidade, a empresa demora mais para localizar a origem de atrasos e corrigir desvios.
Em energia e no setor público, a pressão aparece em operações com muitos usuários, regras específicas e dados sensíveis. Atendimento, segurança da informação e trilhas de registro precisam evoluir junto com os canais digitais.
O que esse novo ritmo exige das empresas no segundo semestre?
Os dados do primeiro semestre mostram oportunidades acompanhadas por custos altos, riscos de crédito e mudanças de demanda. Nesse ambiente, eficiência operacional depende de enxergar os problemas antes que eles ganhem escala.
Empresas mais preparadas para os próximos meses tendem a reunir informações confiáveis, automatizar tarefas repetitivas, acompanhar indicadores próximos da operação e manter clareza sobre responsabilidades e prazos.
A tecnologia passa a sustentar a capacidade de resposta. E, em um mercado mais seletivo, responder melhor pode fazer tanta diferença quanto crescer.
Acompanhe no blog da ABL outras análises sobre tecnologia, operação e eficiência para empresas.
